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Hannah Höch na arte do século XX

  • Foto do escritor: Victoria Serednicki
    Victoria Serednicki
  • 27 de set. de 2023
  • 4 min de leitura

Atualizado: 27 de set. de 2023

A primeira vez que tive contato com o trabalho de Hannah Höch senti uma certa nostalgia, curiosamente a colagem de uma artista a qual nunca ouvira falar me despertou sentimentos dignos de um antigo álbum de fotografia da família. A afinidade foi tamanha que, perdoem-me a audácia e guardadas as devidas proporções, poderia, até mesmo, dizer que já fiz trabalhos semelhantes. Quando criança, descobri a colagem, eram horas e horas revirando as revistas da minha avó à procura de figuras suficientemente convidativas que valessem o esforço do meticuloso corte com tesoura. Posteriormente, detendo todos aqueles pequenos pedaços de papel, fragmentos cuidadosamente selecionados da realidade, eu poderia criar um novo mundo, o meu mundo.


Hannah Höch, nasceu em 1889 em Gota, Alemanha, estudou na Faculdade de Artes e Ofícios de Berlim de 1912 até 1914, especializando-se em artes em vidro e design gráfico. Em 1914, interrompeu os estudos artísticos para trabalhar na Cruz Vermelha. No ano de 1915, voltou a fazer arte gráfica no Instituto Nacional do Museu de Artes e Ofícios e começou a trabalhar no departamento de artesanato, onde desenhava moldes de roupas e bordado. No mesmo ano, a artista iniciou um relacionamento com Raoul Hausmann, um dos principais nomes do dadaísmo de Berlim, em 1919, integrava o movimento artístico com seu trabalho pioneiro na técnica de fotomontagem.


O Dadaísmo foi um dos movimentos mais anárquicos da época, começou em Zurique em 1917 com desdobramentos em várias cidades, ele envolveu a literatura, poesia, teatro, artes plásticas e artes gráficas. Consumidos pela aversão à Primeira Guerra Mundial, os dadaístas se posicionavam contra as suas causas, a saber, todas as estruturas política, econômica e social vigentes. O movimento propôs uma conduta irracional, ilógica e desordenada, mostrando desprezo, inclusive, pela própria arte.


Entretanto, vale ressaltar, que esse grito revolucionário se desenvolveu e ganhou notoriedade de maneira contraditória, o movimento que pregava o fim do establishment, alcançou notoriedade e influência pois se instalou precisamente na estrutura artística contra a qual protestava. Além disso, salienta-se que as críticas sociais as quais fazia não se estendiam à condição da mulher na sociedade, uma vez que era um movimento essencialmente masculino e com comportamentos machistas.


Curiosamente, apesar de toda a irracionalidade e incoerência exaltada pelo Dadaísmo, que particularmente não me atrai, vejo muito comprometimento com a mudança da realidade nos trabalhos de Hannah Höch. Diferentemente de grande parte das obras dadaístas, deliberadamente incompreensíveis, com a explícita finalidade de provocar a burguesia da época, a produção de Hanna, também desconstrói conceitos da arte tradicional, entretanto, seu objetivo é criticar os sistemas político e social de forma direta, cristalina e muitas vezes literal.


Seu trabalho consistia sobremaneira na apropriação e recontextualização de recortes de imagens e textos provenientes de revistas populares, jornais ilustrados, publicações de moda ou, até mesmo, produtos residuais. Logo, as composições resultavam em colagens, as quais apresentavam um posicionamento crítico, principalmente, em relação ao papel feminino na sociedade e à República Weimar.


A construção da própria biografia é inerente à existência humana e nesse aspecto noto a força fundamental do trabalho de Hannah Höch. A história de vida do indivíduo certamente sofre influência do meio em que está inserido, portanto, cabe a cada um de nós o protagonismo de modificar o que está ao nosso alcance. E foi essa ânsia por mudança, pautada principalmente na denúncia do contexto em que vivia, que impulsionou a produção da artista.


Diversas obras destacavam o confronto entre a tradicional e a moderna mulher alemã levantando questões relativas à sexualidade e aos seus papéis de gênero na nova sociedade. Com essas imagens Höch abordou medos, possibilidades e as novas esperanças para as mulheres na Alemanha moderna. As críticas irônicas também se prolongavam à indústria da beleza que, naquele momento, conseguia significativo impulso entre os meios de comunicação em razão da ascensão da fotografia publicitária e da moda.


Quanto às críticas políticas, Hannah igualmente criou importantes obras satíricas, cômicas e detentoras de fortes mensagens. Para ela, a arte deveria ser usada para lutar por um mundo melhor, para servir de espelho da sociedade e da política a fim de instigar os espectadores a uma reflexão crítica da realidade, estimulando- os a mudanças comportamentais.


Analisando uma de suas obras de 1930, Sem Título (De um museu etnográfico) conseguimos traçar paralelos com a atual realidade. Na obra, Figura 1, Höch combina esta imagem da escultura não-ocidental com a imagem de uma mulher bonita da imprensa popular europeia, distorcida com a adição de um olho exageradamente grande. Ela sugere que a sociedade olhe para as mulheres da mesma forma que olha para uma peça de escultura desconhecida: como objetos exóticos e eróticos. Quase 100 anos depois esse olhar desumanizado e superficial ainda está presente em nossa sociedade, a mulher padronizada feita para atender expectativas, como uma imagem fragmentada e construída que serve a determinados fins da sociedade, suprimindo e desconsiderando outras possíveis escolhas e desejos individuais.


Figura 1- Hannah Höch - Sem Título, de um museu etnográfico (1930)




Por fim, outra característica marcante do trabalho de Hanna Höch é a frequência dos autorretratos. Ao meu ver, essa representação reforça suas ações em busca do protagonismo autobiográfico, o esforço por uma existência com sentido ao reconhecer seu propósito como artista. No autorretrato Retrato da vida, Figura 2, ela revisita vários temas que explorou ao longo de sua carreira, incluindo modelos, moda, escultura africana e imagens descontextualizadas de jornais. A obra atua como uma meditação sobre a posição de Höch como artista e como isso mudou ao longo de sua vida, além de evidenciar a representatividade feminina no mundo da arte.


Höch tinha o compromisso com a transformação da realidade, uma transformação palpável, tangível que se apropriou de elementos existentes, destroçando-os e reestruturando-os de forma que escancarou a obscena verdade.


Hannah Höch faleceu em 1978, seu trabalho pioneiro em fotomontagem influenciou diversas artistas mulheres, como a surrealista Claude Cahun e a artista Cindy Sherman. A influência de seu estilo também é observada na estética cut-up do movimento punk, que surgiu no início dos anos 1980.


Figura 2- Hannah Höch - Retrato da vida (1972 - 1973)




Bibliografia:


GOMPERTZ, Will. Isso é arte? 150 anos de arte moderna do impressionismo até hoje. 1ª ed.Rio de Janeiro: Zahar, 2013.

HOGGE, Suzie. Breve história das artistas mulheres: um guia de bolso para os principais movimentos, obras, inovações e temas.1ª ed. São Paulo: Olhare, 2021.

OLIVIA-MELO, C.; PORTINARI, D. Materialidade no tecido da vida: colagens dadaístas e zines feministas. Revista Triades, v. 7, n. 1, 14 mar. 2018.



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